26/01/2009

Complementar

Há alguns anos, em uma cidade chuvosa, nasceu um garoto. Ele cresceu sem receber muitos cuidados, já que sua mãe era solteira e passava o dia inteiro trabalhando. Na escola, ele não ia muito bem. Foi assim até os seus 10 anos, quando por uma fatalidade sua mãe morreu se jogando para salvar o filho que atravessara no sinal vermelho. Com os exames pós-acidente, descobriram que ele sofria de uma forma rara de daltonismo: ele não enxergava cor alguma. Apenas escalas de cinza. Nunca tinha falado nada pois vivia sozinho e como a cidade sempre estava coberta por névoa e chuva, achava normal enxergar daquela forma. Tratamentos diversos foram tentados e falharam um após o outro. O rapaz então atingiu a maturidade e sempre tinha um semblante muito triste. A solidão já é difícil para alguém que enxerga colorido e para ele, pode-se dizer que era um pouco pior. Todos o olhavam de forma estranha e alguns zombavam dele às vezes. Mas um dia tudo mudou. Saindo de um cinema, trombou com uma garota que entrava para a próxima sessão, fazendo com que ela perdesse seu bilhete. Fez questão de pagar uma nova entrada para a moça e a acompanhou no filme. Antes da sessão, conversaram bastante. Quando o filme começou, algo estranho aconteceu. Ele viu nuances de cores em certos momentos. Não no filme, mas sim nela. Passou então o filme inteiro olhando para o rosto dela. Ela olhava para ele e sorria. A cada sorriso, as cores ficavam mais fortes, mais vivas. Finalmente, ela o beijou. E aí, o turbilhão de cores fez com que ele desmaiasse. Horas depois, acordou no hospital. Assustou-se por ver tudo branco no primeiro momento, mas assim que olhou para o lado e viu a moça adormecida, percebeu as cores novamente. Era um mundo completamente novo. Olhando no espelho, descobriu a cor de seu cabelo, de seus olhos e de sua face. Pela janela, via no céu um arco-íris cheio de cores. Não aquela única faixa cinza que ele via depois das chuvas. Colocou então sua calça verde-limão, sua camiseta roxa e tênis vermelhos. Acordou a moça delicidamente e falou, preto no branco, que queria passar o resto da vida com ela. Não por ela ter-lhe feito enxergar as cores do mundo, mas sim por ter-lhe feito escutar, pela primeira vez, seu coração bater tão forte.

1 comentários:

Espírito Livre disse...

Que lindo. Que cores lindas tem o seu amor. Que pena que o meu não as tem.